Empresários, pesquisadores e passageiros debatem formas de superar a crise no transporte público em Porto Alegre

Enquanto empresas estão tendo prejuízos, a população mais pobre se vê cada vez mais excluída devido ao alto preço da tarifa do transporte público em Porto Alegre. Para contornar esta crise, empresários, pesquisadores e passageiros discutem alternativas que podem melhorar o sistema na Capital.

Em abril, o primeiro mês após o início da pandemia de coronavírus, o transporte coletivo sofreu com a ameaça de colapso.

Com queda média de 66% no número de passageiros devido ao isolamento social, o sistema balançou. Mas, para alguns, a Covid-19 apenas escancarou um problema antigo: a perda constante de passageiros.

A diretora da divisão América Latina da Associação Internacional do Transporte Público (UITP), Eleonora Pazos, diz que todos os sistemas estão pressionados pela grande dependência à tarifa.

“O que a gente vê é um variado caos em todas as cidades com problemas de quebras, de como esse sistemas estão sendo mantidos”, diz Pazos.

Foram quase 5,6 milhões de passageiros perdidos em quatro anos. Isso representa uma queda no faturamento, de R$ 25,1 milhões, em 2015, para R$ 19,4 milhões em 2019. A redução de 20% fez com que a receita não cobrisse os custos, e o prejuízo dos transportadores, nos últimos cinco anos, foi de R$ 180,3 milhões. Para os especialistas, esse é o reflexo de um modelo ultrapassado.

“Se basear só na tarifa, ela vai ser necessariamente cara e expulsar as pessoas. Tem que ter uma preocupação social no transporte, que é muito muito ignorada no Brasil, e as cidades não têm capacidade para ajudar no que é preciso”, comenta Rafael Calabria, coordenador de Mobilidade Urbana do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

A operadora de caixa Ana Paula da Silva mora no bairro São Borja, na Zona Norte de Porto Alegre. Para trabalhar, usa o vale-transporte, mas o lazer acaba comprometido.

“Se tu usar o TRI, vai tirar da passagem do teu trabalho, porque, lá no final do mês, vai faltar. Então tu deixa de planejar uns passeios devido ao valor da passagem, ou espera o final do mês para receber e te programar pra sair”, comenta Ana Paula.

 

Passagem compromete 13% do orçamento


Um levantamento do portal Mobilize Brasil mostra que o porto-alegrense tem cerca de 13% de seu orçamento mensal comprometido com o transporte público. Percentual mais alto do que outras grandes cidades da América do Sul.

Transporte público na renda mensal

 

  • Porto Alegre - 13,85%
  • São Paulo - 12,27%
  • Santiago (CHI) - 7,79%
  • Buenos Aires (ARG) - 3,62%

 

Em um sistema complexo como o da Capital, a arrecadação com as linhas curtas ajuda a custear as longas, mais caras para as empresas. É o chamado subsídio cruzado. Mas a chegada dos aplicativos levou embora o passageiro do percurso curto com outros atrativos, como a agilidade, a segurança e o preço mais baixo.

Uma pesquisa do aplicativo de mobilidade Moovit perguntou aos passageiros de Porto Alegre o que faria com que eles utilizassem mais o transporte coletivo. A tarifa menor ficou em primeiro lugar, seguida da maior frequência, segurança, menos congestionamento e, por fim, conforto.

Motivos para usar mais o transporte público

 

  • Tarifa mais barata - 54,4%
  • Maior frequência de ônibus - 53,4%
  • Segurança - 38,7%
  • Menos congestionamento - 38,4%
  • Conforto (assentos, internet, ar condicionado) - 36,5%

 

“Teria que ter um transporte público melhor, mais rápido. Teria que ter vias melhores, que o ônibus não ficasse trancado no engarrafamento, como ficam trancados os carros. Se tranca as vias, não tem um sistema em que o ônibus possa fluir sem parar em engarrafamento", avalia o comerciário Everton Oliveira.

Como reduzir a tarifa?

Empresários e secretários de transporte de todo o país pediram ao governo federal um socorro de R$ 2,5 bilhões para amenizar os efeitos da pandemia. Até hoje, não houve resposta.

O Ministério da Economia informou, por meio de nota, que o governo está atento aos problemas e que analisa alternativas.

"Desde o início da pandemia, o governo está atento aos problemas enfrentados pela economia brasileira, tomando as medidas necessárias e analisando alternativas que precisam ser adotadas para superação deste momento adverso".

A pesquisador da UITP destaca exemplos internacionais. Em Montevidéu, no Uruguai, empresas emitiram bônus no mercado financeiro para se capitalizar, e estão renovando a frota a diesel pela elétrica. A chamada "frota verde" também ganha espaço em Paris, na França, e em Santiago, no Chile.

Segundo especialistas em transporte, a maior parte do investimento feito pelo poder público em infraestrutura nas últimas décadas beneficiou quase que exclusivamente o carro particular, que, proporcionalmente, polui mais, congestiona as vias e causa acidentes. Enquanto isso, o transporte coletivo ficou caro e menos eficiente. Por isso, diversas cidades do mundo decidiram inverter essa lógica e cobrar essa conta do automóvel.

“A teoria econômica justifica que esses impactos ambientais e sociais sejam compensados através de pagamento. Assim faz todo sentido, por exemplo, cobrar o estacionamento de longa permanência e taxar o congestionamento para melhorar a circulação, bem como usar essa arrecadação pra cobrir os custos e, assim, reduzir a tarifa do transporte coletivo”, afirma o diretor de cidades do WRI Brasil, Luís Antônio Lindau.

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